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“Com a educação ambiental aumentaremos a necessidade de defesa do São Francisco”

Anivaldo Miranda concede entrevista exclusiva e fala sobre vários assuntos (Foto: Thiago Sampaio/CBHSF)

Presidente do Comitê do São Francisco concede entrevista exclusiva e fala sobre a Mostra Ambiental, inclusão e acessibilidade e da evidência sobre o Rio em horário nobre com a novela Velho Chico

Texto de Deriky Pereira

O presidente do Comitê, Anivaldo Miranda, concedeu entrevista exclusiva ao Circuito Penedo de Cinema. Na conversa, falou sobre a proposta da Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental, a importância do debate sobre as questões relacionadas ao Rio São Francisco com as crianças e adolescentes, da inclusão e acessibilidade do evento este ano e também de quanto o Rio esteve em evidência este ano pela produção e exibição da novela “Velho Chico” na TV Globo.

Confira a entrevista:

Circuito Penedo de Cinema: Qual a proposta da Mostra Velho Chico?

Anivaldo Miranda: É a junção de vários interesses muito positivos. Do ponto de vista do comitê, que patrocina também este Circuito, isso significa a execução de uma de nossas linhas de atuação que é, no contexto da gestão das águas, trabalhar também no viés cultural do sentido de consolidar, digamos assim, a identidade dos povos da bacia do São Francisco e de suas populações, pois entendemos que o Rio não é, digamos assim, um canal natural por onde passam águas. Um rio é, além de todos os usos que se fazem das águas dele, um patrimônio importante do imaginário das pessoas, faz parte da história e é um motivo até de identidade afetiva. Então é muito importante que você, ao cuidar da gestão das águas no sentido mais amplo, cuide da alma das pessoas em relação ao próprio Rio porque talvez seja uma das formas mais eficientes de garantir que a população, de fato, defenda os ecossistemas, mantenham a consciência de que o ele precisa de águas limpas e, portanto, sejam partícipes dessa grande batalha pra recuperar o São Francisco do ponto de vista hidro ambiental.

Circuito Penedo de Cinema: Esse ano, a Mostra teve algum tema em especial?

Anivaldo Miranda: Em verdade, a gente patrocina o Circuito, mas deixa a comissão organizadora do festival bem à vontade nesse processo, até porque uma figura chave da organização da Mostra é o nosso amigo, o professor Sergio Onofre [coordenador geral], que também, de alguma forma trabalha voluntariamente na estrutura do Comitê, na nossa câmara técnica de povos tradicionais. Como ele já tem certa intimidade com as tarefas do Comitê, com os problemas do Rio, com as demandas dos povos tradicionais, tais como o debate, por exemplo, em termo da questão das vazões e da escassez hídrica, então sempre confiamos a ele e aos membros da mostra que, com sensibilidade, possam atrair realizadores que debatam, evidentemente com toda liberdade cultural, problemas do dia a dia e do cotidiano dos habitantes da Bacia, captando no plano da arte aqueles desafios que a vida nos apresenta. Nesse sentido estamos muito tranquilos, pois sabemos que até indiretamente uma mostra que trata de questões ambientais, feita numa cidade ribeirinha do rio, inevitavelmente trará à tona essas questões que queremos abordar com mais extensão.

Circuito Penedo de Cinema: A Mostra também recebe estudantes e eles participam de um debate. Como você avalia a importância desse debate e com esse público-alvo?

Anivaldo Miranda: As atividades do Comitê são das mais variadas, mas uma das linhas que precisamos desenvolver agora é a da educação ambiental, para que a consciência em torno da necessidade de defender o Rio aumente. E ninguém melhor que a infância e a juventude pra fazer isso, porque na medida em que a educação ambiental atingir a esse público, do ponto de vista estratégico, estaremos criando uma cultura em uma população bem mais consciente e mais preparada para viver com os problemas da gestão das águas.

Circuito Penedo de Cinema: Esse ano, tivemos profissionais audiodescritores e tradução em Libras, tanto nas Mostras Infantil quanto na Ambiental. Comente sobre a importância dessa inclusão.

Anivaldo Miranda: Olha, o Comitê é um colegiado aberto. Não é órgão público, não é empresa privada, não é ONG e, ao mesmo tempo, é isso tudo, porque lá a sociedade civil, o poder público e econômico por meio dos usuários da água se encontram. É onde os conflitos se resolvem pelo caminho do consenso. Nem sempre é tão fácil, então trabalhamos muito, pois nele estão representados os povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, populações tradicionais, sindicatos, enfim, que de uma forma ou de outra trabalham com a cidadania. Se o Comitê é uma coisa dessa natureza, evidente que uma política pública que tem dimensão social, humanista e educadora, não poderia agir somente sobre o contexto de seus interesses. Quando você fala de cidadania, ela é uma coisa que só existe em sua amplitude. Não adianta defendê-la somente na questão da água e esquecer que ela engloba outras coisas, dentre elas a inclusão dos setores vulneráveis à população. Nós damos todo o apoio a essa inclusão e estamos evoluindo na nossa política de comunicação cada vez mais para produzir cada vez mais peças bilíngues e vamos começar em nossas reuniões mais públicas e amplas a usar essa mesma metodologia para que pessoas com deficiência visual ou de audição, por exemplo, possam participar da melhor maneira possível – uma coisa reforçando a outra.

Circuito Penedo de Cinema: Este ano, o Rio São Francisco esteve em evidência por conta da novela “Velho Chico”. Como você avalia a relevância de se trazer um produto sobre o Rio em pleno horário nobre da TV aberta?

Anivaldo Miranda: Eu vejo como um grande avanço. As pessoas que escreveram a novela tiveram uma boa ideia, que foi a de conversar com o Comitê sobre os problemas da Bacia antes de finalizar o roteiro e os textos e etc. Uma parte da diretoria foi a São Paulo, numa conversa muito longa e boa e entendemos que uma novela é uma novela, um livro é um livro e um relatório é um relatório. Entendemos muito bem que quando você vai fazer uma obra de arte o importante é não transformá-la nem em panfleto e nem documento. É importante, também, que o artista que vai ter um olhar especial sobre uma problemática, quanto mais ele conhecer da realidade, melhor ele vai construir o seu imaginário, com uma estética avançada, como a interpretação daquele problema que, ao ser interpretado, pode ser de uma maneira mais sensível com um viés de lazer, mas dando espaço à imaginação. Eu diria que o contato foi importante. Evidente que, na construção do roteiro, haviam também algumas nuances que migram desde a liberdade de criação do autor, mas passa por vários, estágios e instancias intermediarias já que você não tem só o elaborador do texto. Ao cria-lo, precisa-se que alguém viabilize a produção para que alguém veicule e etc. Como é um tema que trata de uma região extremamente polemica em função de suas desigualdades sociais e conflitos existentes, então os autores tem um grande compromisso com a criação e liberdade de opinião, mas vamos encontrar interesses comerciais, de divulgação, institucionais, enfim, um complexo de coisas que entre a ideia e o produto que vai sair, não saia sem alguns arranhões. Mas eu diria que o produto final, apesar de evitar abordagem de algumas realidades conflituosas da atualidade, deixou, pelo menos, eu diria algumas mensagens importantes.

Circuito Penedo de Cinema: Quais foram essas mensagens? E o que poderia ter sido abordado pela novela que não chegou a ser?

Anivaldo Miranda: A de que o rio vive uma crise. Evidentemente que não houve aproveitamento disso; as épocas em que a obra se inseria, por exemplo, acho que ficaram um pouco confusas. As pessoas se perguntavam da época em que se passava, evidente que isso é da liberdade do criador, mas no momento em que se tem uma realidade tão crítica, eu não sei se teria sido a melhor escolha. Coisas fundamentais como o debate da crise hídrica, da transposição e também do lado positivo que é a organização da sociedade, a política dos comitês, não só o do Rio, mas dos rios tributários, toda a coisa da superexploração dos aquíferos, enfim, boa parte disso deixou de aparecer. Então, saiu uma novela muito bem executada pelos atores, houve um momento de atenção em torno do Rio, algumas mensagens básicas, tais como os cuidados com a terra e, mesmo de forma muito lateral, com a água, ficou mais ou menos no imaginário e o que podemos dizer é que, pra nós, o saldo foi positivo e muito melhor seria caso não tivesse havido a tragédia do Domingos Montagner – que estava, inclusive, prevista a sua participação aqui no Circuito. Então, neste momento, eu quero agradecer ao Benedito Ruy Barbosa e à sua família, quero agradecer também ao elenco de atores e atrizes, à emissora que foi responsável pela novela e todos os seus técnicos, visto que ela vai na mesma linha nossa, que é a de trazer a temática da bacia do Rio São Francisco, do nosso semiárido, à luz, pois vamos precisar muito. E não só no plano artístico, mas também nos planos da ação social e da economia, vamos aprofundar esse tema no contexto nacional.

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